
Embora a imagem internacional da culinária japonesa esteja fortemente associada ao peixe, a realidade alimentar do país é mais diversificada — e vem mudando ao longo das últimas décadas. No universo das proteínas animais da dieta japonesa, o consumo de carne, sobretudo a suína, já supera o de pescado desde 2008. Em 2015, por exemplo, o consumo médio anual de carne atingiu 30 kg por habitante, contra 26 kg de peixe. Apesar de o peixe continuar sendo um pilar da dieta tradicional, o seu consumo vem diminuindo desde 2001, enquanto a carne ganha cada vez mais espaço.
Hoje, os cinco animais mais presentes na dieta japonesa são:
| Posição | Proteína Animal | Exemplos de Uso na Culinária |
| 1️⃣ | Porco (Butaniku) | Tonkatsu, ramen, shogayaki, nikujaga |
| 2️⃣ | Peixe (Sakana) | Sushi, sashimi, grelhados, nabe, café da manhã tradicional |
| 3️⃣ | Frango (Toriniku) | Karaage, yakitori, teriyaki, oden |
| 4️⃣ | Vaca (Gyuniku) | Sukiyaki, yakiniku, gyudon, shabu-shabu |
| 5️⃣ | Frutos do mar (Kai) | Takoyaki, okonomiyaki, sashimi de polvo, ostras, vieiras |
Além das carnes e pescados, o tofu — produzido a partir da soja — continua sendo uma importante fonte de proteína vegetal no cardápio japonês.

1. Carne de Porco – A líder de consumo
A carne suína é a mais consumida no Japão, superando amplamente a bovina e a de frango. Sua história no arquipélago é marcada por períodos de popularidade e de restrições. Introduzida inicialmente em Okinawa por influência chinesa, não se disseminou rapidamente devido às dificuldades de criação. O cenário mudou no final do século XIX, com a Restauração Meiji e a abertura ao Ocidente, quando receitas como o tonkatsu (costeleta empanada) e o nikujaga (ensopado de carne e batata) começaram a ser incorporadas. Após a Segunda Guerra Mundial, a popularidade da carne de porco cresceu de forma consistente, chegando a um aumento de 833% em relação ao consumo de 1961.
Em Okinawa, ela permanece central na gastronomia, com pratos como rafute (barriga cozida lentamente) e soki (costela suína).
Pratos típicos com carne de porco:
- Tonkatsu – Costeleta empanada e frita, servida com repolho, missô e arroz.
- Shogayaki – Fatias finas cozidas em molho de gengibre e alho.
- Nikujaga – Ensopado criado pela Marinha Imperial Japonesa.
- Buta no kakuni – Barriga cozida lentamente, típica de Nagasaki.
- Chashu – Carne de porco cozida em caldo aromático, comum no ramen.
- Motsunabe – Ensopado de miúdos de porco ou boi, típico de Kyushu.
- Yakisoba – Macarrão frito com tiras de porco, legumes e molho shoyu.
- Ramen – Versões como o tonkotsu usam caldo de osso de porco.
- Gyoza – Pastéis recheados com carne suína e vegetais.
- Kakuni – Carne cozida em molho de soja e açúcar até ficar macia.
- Motsu-yaki e Horumon-yaki – Grelhados de vísceras, comuns em bares.
2. Peixes – Patrimônio alimentar japonês
A geografia insular e a tradição pesqueira fizeram do peixe um elemento central na mesa japonesa. Pratos como sushi, sashimi, nabe e peixe grelhado no café da manhã são ícones culturais. Entretanto, dados recentes indicam queda no consumo de pescado, ao passo que a carne atinge cerca de 34 kg per capita.
Os peixes mais consumidos no Japão são:
- Atum (Maguro) – Ícone do sushi e sashimi. O atum-rabilho (honmaguro) é o mais valorizado, com cortes como akami (magro e firme), chutoro (médio teor de gordura) e otoro (barriga extremamente macia e amanteigada). Outras variedades incluem a albacora (bincho-maguro), o patudo (kihada-maguro) e espécies menores como kawakawa.
- Salmão (Sake) – Servido grelhado no café da manhã, cru como sashimi ou no sushi.
- Sanma – Peixe de outono celebrado no Sanma Matsuri.
- Bonito (Katsuo) – Consumido como tataki ou em lascas desidratadas (katsuobushi) que temperam pratos como okonomiyaki e takoyaki.
- Shishamo – Pequeno peixe salgado, grelhado e servido inteiro, muitas vezes com ovos. Pode ser muito encontrado nos Izakayas.
- Buri – Conhecido como olho de boi no Brasil, pode ser grelhado ou cozido com shoyu e mirin.
- Tai – Pargo associado à boa sorte, comum em casamentos e celebrações.
- Saba – Cavalinha de baixo custo, servida cozida ou grelhada.
- Unagi – Enguia de água doce, grelhada com molho kabayaki e servida sobre arroz.
- Suzuki – Robalo apreciado pelo sabor delicado e versatilidade.

3. Carne de Frango – Popularidade em ascensão
Mais acessível e considerada mais saudável, a carne de frango vem ganhando destaque. É versátil e utilizada em pratos simples do dia a dia, bem como em petiscos de bares.
Destaques culinários:
- Karaage – Frango marinado e frito até ficar crocante.
- Yakitori – Espetinhos grelhados com diferentes cortes.
- Ensopados e cozidos – Com peito ou coxas, comuns na culinária caseira.

4. Carne de Boi – Sabor refinado
Embora menos consumida que a suína ou a de frango, a carne bovina ocupa um espaço especial, principalmente em receitas de ocasião ou restaurantes especializados. A wagyu — carne de raças japonesas — é famosa pelo marmoreio e maciez. Entre elas, destaca-se o Kobe Beef, considerado um produto de luxo.
Pratos tradicionais com carne bovina:
- Sukiyaki – Ensopado cozido na mesa, com carne, tofu, cogumelos e vegetais.
- Shabu-shabu – Fatias finas mergulhadas rapidamente em caldo quente.
- Gyudon – Tigela de arroz com carne e cebola em molho adocicado.
- Yakiniku – Churrasco de mesa no estilo japonês.
- Teppanyaki – Grelhado em chapa de ferro diante do cliente.
5. Frutos do Mar – Diversidade de sabores
Além dos peixes, os frutos do mar são amplamente utilizados e incluem:
- Polvo (Tako) – Em sushi, sashimi e pratos como takoyaki.
- Lula (Ika) – Servida crua, grelhada ou recheada.
- Camarão Kuruma e Botan-ebi – De sabor adocicado, usados em sushi e pratos quentes.
- Ovas – Como massago, tobiko e ikura, com diferentes texturas.
- Kani (caranguejo) – Natural ou em versão processada.
- Ostras – Com destaque para o kaki furai (fritas), consumidas no inverno.
Japoneses comem carne de cachorro?
Não. Diferentemente de alguns países asiáticos, como China e Coreia do Sul, onde há registros históricos do consumo de carne de cachorro, no Japão essa prática não faz parte da cultura alimentar e é, de fato, praticamente inexistente.
Alguns aspectos ajudam a compreender essa realidade:
- Laços afetivos com os cães: no Japão, eles são tratados como integrantes da família. O país conta com clínicas veterinárias modernas, lojas especializadas e até serviços luxuosos, como spas dedicados a animais de estimação.
- Normas e custos: as regulamentações rigorosas e o alto custo de criação de cães tornam inviável qualquer possibilidade de consumo.
- Tradição culinária: a gastronomia japonesa é reconhecida pela sofisticação, pelo uso de ingredientes frescos e pelo foco em refeições equilibradas — elementos que em nada se relacionam ao consumo de carne de cachorro.
O mito de que os japoneses se alimentam desse tipo de carne surge, em grande parte, de preconceitos culturais e de informações equivocadas que circulam há muito tempo. A realidade, no entanto, mostra um cenário completamente diferente.
Conclusão
A alimentação japonesa é fruto de um equilíbrio entre tradição e adaptação. Embora o peixe ainda seja um símbolo nacional e parte essencial da identidade gastronômica do país, mudanças culturais, econômicas e sociais vêm ampliando o espaço das carnes, em especial a suína, na mesa dos japoneses. Hoje, o cardápio do Japão reúne uma impressionante diversidade de proteínas — do tonkatsu ao sushi, do karaage ao wagyu — refletindo não apenas a herança culinária milenar, mas também a abertura para novas influências. Essa fusão entre o antigo e o moderno garante que a culinária japonesa continue sendo uma das mais ricas, variadas e admiradas do mundo.

