Ōmisoka e a Virada do Ano no Japão: rituais, simbolismos e o encerramento de um ciclo

Foto de HONG FENG na Unsplash

No Japão, o dia 31 de dezembro é conhecido como Ōmisoka (大晦日) e ocupa um lugar de destaque no calendário cultural. Mais do que a véspera do Ano Novo, trata-se de um momento dedicado à limpeza, à reflexão e à preparação espiritual para o ciclo que se inicia. É um dia marcado pelo silêncio, pela introspecção e pelo respeito ao tempo que se encerra.

O significado do termo Ōmisoka

A palavra Ōmisoka é formada por dois elementos da língua japonesa:

  • Ō (大), que significa “grande”;
  • Misoka, termo tradicionalmente usado para designar o último dia do mês.

Assim, Ōmisoka pode ser compreendido como “o grande último dia do ano”, expressão que reflete sua importância simbólica. Culturalmente, é o momento de fechar pendências, concluir ciclos e preparar corpo e espírito para um novo começo.

Costumes e práticas do Ōmisoka

Ōsōji: a grande limpeza de fim de ano

Uma das tradições mais marcantes do período é o Ōsōji (大掃除), a grande limpeza realizada nos últimos dias de dezembro, geralmente antes do dia 31. Diferentemente de uma faxina comum, essa prática carrega um forte valor simbólico: eliminar não apenas a sujeira física, mas também as energias acumuladas ao longo do ano.

Casas, escritórios e comércios passam por uma limpeza minuciosa, incluindo espaços que normalmente são negligenciados. Ao organizar, descartar excessos e abrir espaço, acredita-se que a boa sorte, a harmonia e o bem-estar possam entrar no novo ano. O Ōsōji também estimula valores centrais da cultura japonesa, como simplicidade, desapego, gratidão e equilíbrio, princípios diretamente ligados ao washoku e ao estilo de vida consciente.

Resolver pendências e preparar o caminho

O Ōmisoka também é um dia voltado à finalização de assuntos inacabados. Quitar dívidas, concluir compromissos e encerrar tarefas pendentes faz parte da ideia de não carregar pesos desnecessários para o ano seguinte. Tradicionalmente, acreditava-se que começar o Ano Novo sem pendências era essencial para atrair prosperidade e proteção divina.

Convívio familiar e tradições modernas

Com a casa em ordem, muitas famílias se reúnem de forma tranquila para passar as últimas horas do ano juntas. Um costume bastante difundido é assistir à televisão, especialmente ao tradicional Kōhaku Uta Gassen, exibido pela NHK, um programa musical que reúne artistas populares e ultrapassa quatro horas de duração. Mais recentemente, alguns grupos optam por assistir a grandes eventos esportivos, como competições de artes marciais.

Esses hábitos têm raízes antigas, ligadas à reverência aos toshigamisama ou toshitokusama, divindades associadas aos anos que passam e aos que chegam, reforçando a ideia de respeito aos ciclos do tempo.

Toshikoshi Soba: o prato da virada do ano

A comida mais emblemática do Ōmisoka é o Toshikoshi Soba (年越しそば), um macarrão de trigo-sarraceno servido em caldo leve e com poucos ingredientes. Seu significado é profundamente simbólico:

  • o comprimento dos fios representa o desejo de vida longa;
  • a facilidade de cortar o macarrão simboliza deixar para trás os problemas e dificuldades do ano que termina.

Além do simbolismo, a soba se destaca como uma opção equilibrada e saudável, alinhada aos princípios do washoku. Leve, nutritiva e de fácil digestão, ela prepara o corpo para a transição do ano sem excessos, reforçando a ideia de recomeçar com leveza e consciência.

Washoku no fim do ano: simplicidade como virtude

Diferentemente de muitas celebrações ocidentais, o fim do ano japonês não é marcado por exageros alimentares. A proposta do washoku durante o Ōmisoka é clara: comer de forma simples, moderada e significativa. Mais do que o prato em si, valoriza-se o ato de comer com atenção, respeitando o corpo e o momento.

Após um ano de trabalho intenso, o jantar de Ōmisoka convida à pausa, à reflexão e ao preparo físico e mental para o novo ciclo. Assim como o toque do sino purifica a mente, a alimentação equilibrada contribui para um recomeço mais harmonioso.

Joya no Kane: os 108 toques do sino

À meia-noite, um dos rituais mais emblemáticos do Ōmisoka acontece nos templos budistas: o Joya no Kane (除夜の鐘). Nesse ritual, o grande sino do templo, chamado bonshō, é tocado 108 vezes, número que representa, segundo o budismo, os 108 tipos de desejos, apegos e imperfeições humanas, conhecidos como bonnō.

Entre eles estão sentimentos como raiva, inveja, orgulho, ganância, egoísmo, ignorância, ansiedade e medo. Cada toque simboliza a purificação de um desses estados mentais, preparando o espírito para iniciar o Ano Novo de forma mais limpa e equilibrada.

Tradicionalmente, os sinos começam a ser tocados entre 22h30 e 23h do dia 31. Em muitos templos, os 107 primeiros toques acontecem antes da meia-noite, enquanto o 108º toque é realizado já no dia 1º de janeiro, marcando simbolicamente a entrada no novo ano livre das impurezas do ciclo anterior.

Em vários locais, os visitantes podem participar do ritual, tocando o sino uma única vez, sempre em silêncio, com respeito e intenção. O som grave e prolongado do sino transmite calma, desapego e a percepção da passagem do tempo, tornando o momento profundamente espiritual, distante da atmosfera festiva típica do Réveillon ocidental.

Hatsumōde e rituais de purificação

Após a meia-noite, muitas pessoas realizam o Hatsumōde, a primeira visita do ano a um santuário xintoísta ou templo budista. Durante esse momento, é comum a prática do Temizu, ritual de purificação realizado com água antes de se aproximar do espaço sagrado.

Utilizando uma concha chamada hishaku, os visitantes lavam mãos e boca em uma fonte conhecida como chōzuya ou temizuya, simbolizando a purificação física e espiritual. Em alguns templos, especialmente durante o Ano Novo, a água é decorada com flores, valorizando a estética e o respeito aos ciclos da natureza — elementos centrais da cultura japonesa.

Nos santuários xintoístas, também é comum a distribuição de amazake, uma bebida doce à base de arroz, oferecida às multidões que se reúnem na virada do ano em busca de sorte e bênçãos.

Preparativos para o Ano Novo

O Ōmisoka é um dia movimentado também no comércio. Supermercados e lojas ficam cheios de clientes que aproveitam as últimas compras antes do sanganichi, os três primeiros dias do Ano Novo, período em que muitas cozinhas “descansam” enquanto as famílias consomem o tradicional osechi ryōri, conjunto de pratos simbólicos preparados com antecedência.

As decorações de Ano Novo, como kadomatsu, shimekazari e kagami mochi, devem ser instaladas até o dia 28 de dezembro. Colocá-las apenas no dia 31 é considerado ichiya-kazari, um mau presságio, pois os deuses do Ano Novo exigem uma recepção adequada e antecipada.

Ōmisoka: encerrar para recomeçar

O Ōmisoka sintetiza a visão japonesa sobre o tempo e a renovação. Limpar a casa, ajustar a vida, comer de forma simples, silenciar a mente e respeitar os rituais são formas de encerrar o ano com consciência. Mais do que uma despedida, o Ōmisoka é um convite a recomeçar melhor, com equilíbrio, leveza e intenção — valores que seguem atuais e inspiradores, mesmo fora do Japão.

O descanso da cozinha após a virada do ano

Após a chegada do Ano Novo, existe no Japão um costume pouco conhecido fora do país, mas profundamente simbólico: evitar cozinhar nos primeiros dias de janeiro. Tradicionalmente, acredita-se que o fogo da cozinha deve “descansar” nesse período, permitindo que tanto a casa quanto as pessoas iniciem o novo ciclo com tranquilidade e equilíbrio. Esse hábito reforça a ideia de pausa, contemplação e respeito ao ritmo natural do corpo e do ambiente.

Essa prática está diretamente relacionada ao oshōgatsu, o período mais importante do Ano Novo japonês. Durante os três primeiros dias — conhecidos como sanganichi — as famílias consomem principalmente o osechi ryōri, pratos preparados antecipadamente, justamente para evitar o trabalho doméstico nesse momento considerado sagrado. Ao reduzir atividades cotidianas, como cozinhar, cria-se espaço para o convívio familiar, a reflexão e a recepção simbólica das divindades do Ano Novo.

Além do aspecto espiritual, o costume também carrega um significado social e humano: oferecer descanso a quem cuida da casa, especialmente às pessoas responsáveis pela alimentação ao longo do ano. Assim, não cozinhar após a virada não é visto como privação, mas como um gesto de respeito, gratidão e renovação, alinhado à filosofia japonesa de começar o ano com leveza, simplicidade e harmonia.

O simbolismo do mochi nos templos budistas

Imagem de Nesnad de Wikimedia Commons

Durante o período do Ano Novo, os bolinhos de arroz mochi assumem um papel central nos templos budistas e na vida cotidiana japonesa. Feitos a partir do arroz glutinoso, o mochi simboliza pureza, prosperidade e continuidade, sendo associado à força vital e à renovação do espírito. Sua textura elástica representa a resistência diante das dificuldades e a capacidade de adaptação, qualidades desejadas para o ano que se inicia.

Nos templos budistas, o mochi é frequentemente utilizado como oferta ritual, reforçando a ligação entre o mundo material e o espiritual. O kagami mochi, formado por dois bolinhos redondos empilhados, é um dos exemplos mais emblemáticos. Seu formato circular remete à harmonia, à completude e ao ciclo da vida, enquanto a sobreposição simboliza a transição entre o ano que termina e o que começa. Essas oferendas são colocadas em altares como forma de acolher as energias do novo ano e demonstrar gratidão pelas bênçãos recebidas.

Após o período inicial do oshōgatsu, muitos templos realizam cerimônias em que o mochi é compartilhado com os fiéis, transformando a oferenda em alimento comunitário. Esse gesto simboliza a partilha da boa fortuna e reforça o senso de coletividade, tão presente na cultura japonesa. Assim, o mochi deixa de ser apenas um alimento tradicional e se consolida como um elemento espiritual, capaz de unir devoção, tradição e renovação interior no início do Ano Novo.

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